“Conhece-te a ti mesmo.”

Quando pensamos em um líder e seus atributos naturalmente surgem, em nossas mentes, qualidades como pensamento estratégico, obstinação, criatividade, resiliência, entre outras. Embora sejam de grande importância, entendemos serem insuficientes para forjarem a verdadeira liderança. Líderes autênticos são também reconhecidos por portarem alta dose de inteligência emocional. Sem ela, a pessoa pode ser extremamente inteligente, analítica, conhecer profundamente seu negócio, mas, ainda assim, falhará redondamente em seu intento de se tornar um grande líder.

Foi Daniel Goleman que tornou o termo “inteligência emocional” conhecido do grande público com seu livro de mesmo nome, publicado em 1995.

Podemos entender inteligência emocional como a “habilidade de reconhecer as suas emoções e a dos outros, de discriminar suas diversas emoções e qualificá-las apropriadamente e, finalmente, utilizar dessa informação para guiar seu pensamento e comportamento”. (Andrew Coleman).

Em 2002, o Prêmio Nobel de Economia foi concedido a um professor de Psicologia da Universidade de Princeton, Daniel Kahneman. Segundo suas pesquisas, sem qualquer margem de dúvidas, as pessoas, primeiramente, comportam-se de modo emocional e, em seguida, de modo racional. Acredito que a constatação de Kahneman, aliada a tudo o que já sabemos sobre inteligência emocional, pode gerar um profundo impacto em sua vida pessoal, sua carreira e sua organização.

Pense por exemplo em uma empresa cuja relação com seu cliente é baseada somente no preço. Certamente, estará em apuros quando seu concorrente superar sua oferta em centavos. Ou, ainda, no líder cuja relação com sua equipe baseia-se somente em aspectos racionais, como metas e resultados, em uma espécie de transação em que se troca o tempo do trabalhador por seu salário. É provável que enfrente problemas em reter os melhores talentos. A chave, aqui, é a existência do que chamo de conectividade, ou seja, equilíbrio entre os aspectos racionais de sua vida e negócios, com uma certa dose de inteligência emocional na sua relação consigo mesmo e com os outros. Eu sempre faço uma divisão simples de modo a analisar nossa inteligência emocional sobre dois aspectos: sua relação com nós mesmos – consciência sobre nossas emoções e sua regulação – e com os outros – conectividade, empatia e habilidades sociais.

O primeiro passo para o desenvolvimento e ampliação de inteligência emocional é nos tornarmos plenamente conscientes de nossas emoções. Mais que isso: é compreendermos o que desperta em nós o nosso melhor e o nosso pior. Quais são os gatilhos que alteram o nosso humor? Uma crítica? Um cliente exigente? Alguém que discorde de nosso ponto de vista?

É fundamental que o líder seja honesto em relação às suas emoções, pois isso o permite conhecer melhor suas fraquezas e fortalezas. O que se demanda aqui é uma avaliação realista e criteriosa sobre como reagimos, emocionalmente, aos desafios enfrentados e o impacto que tal reação gera em nosso comportamento e relacionamentos na vida e no trabalho.

Como seres humanos, temos uma tendência natural de minimizar ou mesmo desconhecer nossas limitações e enaltecer, irrealisticamente, nossas habilidades. Essa percepção equivocada, muitas vezes, leva-nos a cometer equívocos que poderiam ser evitados se houvesse uma avaliação mais realista de nossas emoções. Entendo que uma forma bastante eficaz de realizar tal avaliação é fazê-la na terceira pessoa. Explico: quando falamos de emoções e tudo aquilo que trazem consigo, euforia e tristeza, encantamento e tédio, raiva e alegria, é comum que a paixão vede os nossos olhos. Como seres passionais, é muito difícil avaliar nossas emoções, reações e comportamentos quando estamos plenamente envolvidos na situação, isso é, na primeira pessoa.

Estar na terceira pessoa é imaginar-se em frente da tela de um cinema, em que os atores principais, ali atuando, somos nós mesmos de um lado e, de outro, aquele pensamento, situação ou pessoa que gera as emoções que desejamos ter ou evitar.

Tomemos, como exemplo, uma reunião difícil da qual acabou de participar. Nessa reunião, você teve uma discussão com um colega de trabalho e as coisas descambaram para um clima tenso e de confronto pessoal. Neste momento, você está em frente do computador, pronto para escrever uma mensagem dura para aquele colega da qual, provavelmente, irá se arrepender. Aqui, não há dúvida que está na primeira pessoa, ou seja, no olho do furacão, ainda sentindo todos os efeitos nocivos daquilo que foi dito no encontro e sentindo, quase que fisicamente, os seus efeitos.

Ir para a terceira pessoa é se imaginar expectador do que aconteceu. Revisar as cenas e questionar o que o incomodou, perguntar-se qual o melhor curso de ação a ser tomado. Esse ato, por si só, já diminui o impacto emocional do evento e aumenta o seu conhecimento sobre si mesmo e suas emoções. É um olhar menos apaixonado e mais realista sobre nossa conduta, sobre o que nos incomoda ou enfraquece e, principalmente, como podemos nos fortalecer emocionalmente.

Outra maneira bastante eficaz de desenvolvimento emocional é nos tornamos “porteiros” mentais. Isso significa que, por meio de um ato de esforço e vontade, nós elegeremos quais os pensamentos poderão permanecer em nossa mente. Se, de um lado, não podemos controlar os pensamentos que surgem, de outro, podemos e devemos eleger aqueles que, ali, permanecerão e serão alimentados. É importantíssimo levar em conta que TODO pensamento gera uma sensação e que, se esses pensamentos forem alimentados, tornar-se-ão sentimentos e emoções que, por sua vez, gerarão enorme influência em nossas ações e resultados alcançados.

Por exemplo, pense, neste momento, em uma pessoa ou evento que lhe faz sorrir.Pode ser seu filho(a) ou um passeio na praia. É bem provável que tais pensamentos sejam acompanhados de uma SENSAÇÃO de bem-estar. Se tais pensamentos são constantes e diários é possível que surjam sentimentos de amor, solidariedade e paz, o que tornariam, em última análise, parte de quem você é. Por outro lado, se, neste momento, você se recordar de um evento negativo em sua vida, esse não ficará isolado no campo mental, pois, provavelmente, você terá uma sensação de mal-estar, tristeza ou raiva, que o acompanhará. Se alimentados e repetidos, tais pensamentos ganharão força e tornar-se-ão sentimentos fortes de rancor e amargura.

Depois de algum tempo, aquele que pensa e sente dessa forma TORNA-SE uma pessoa amarga, triste e raivosa, levando isso para sua vida em geral. Algumas pessoas são experts em regurgitar, mentalmente, tudo aquilo que lhes faz mal e, desta maneira, todas as vezes que assim agem, SENTEM todas as emoções correspondentes. É inevitável que, em determinados momentos, surjam pensamentos indesejados, mas acolhê-los e alimentá-los é uma questão de escolha nossa. Uma vez que você se dá conta de que há uma relação direta entre o que pensa e o que sente, torna-se mandatório que preste mais atenção naquilo que pensa.

Mas o lado inverso é igualmente verdadeiro. Quando pensamos nas coisas que nos fazem bem, que estão alinhadas com nosso propósito de vida, nas pessoas que amamos,imediatamente, SENTIMO -NOS melhor e mais fortalecidos emocionalmente.Não estou, aqui, defendendo que não encaremos as questões difíceis da vida, que não aceitemos nossas emoções como elas são (e algumas serão extremamente dolorosas). O que sugiro é que estejamos conscientes de que nossos pensamentos podem ser agentes poderosos na potencialização de nossos sentimentos, sejam eles prazerosos ou dolorosos.

 

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