O HOMEM MAIS FELIZ DO MUNDO

Permita-me que eu lhe apresente Matthieu Ricard. Ele é francês, Ph.D em genética molecular pelo Instituto Pasteur e que resolveu, ainda jovem, tornar-se um monge budista.

Até aqui, nada demais, se não fosse pelo fato de que, em 2012, Ricard se submeteu a um estudo conduzido pelo neurocientista Richard Davidson, professor da Universidade de Wisconsin. Nesse estudo, Davidson ligou o crânio de Ricard a 256 sensores para futuro escaneamento.

Uma vez escaneado, percebeu-se que o cérebro de Ricard produzia níveis de ondas gama – aquelas vinculadas à consciência, atenção, aprendizado e memória – nunca reportadas na literatura da neurociência.

O scanner também mostrou uma atividade excessiva em seu córtex pré-frontal esquerdo, quando comparado com o direito, o que denota uma propensão imensa para a felicidade e, por outro lado, muito reduzida em relação à negatividade. Isso fez com que fosse declarado como o homem mais feliz do mundo!

O que nos interessa, nessa pesquisa, é que o neurocientista Richard Davidson afirmou que resul tados notáveis foram encontrados não somente em meditadores experientes, como Ricard, mas também em voluntários que praticaram 20 minutos diários de meditação por, pelo menos, quatro semanas!

Uma questão de sanidade… E de desempenho!

Se você é um profissional do século XXI, é bem provável que viva em ritmo acelerado.

Compromissos com a família, prazos fatais, projetos em andamento, caos urbano.

Vivemos correndo e acelerados.

A ordem é fazer! Produzir! Realizar!

Nesse ambiente de cobranças e estresse, eu considero a meditação uma questão de sanidade, uma forma de nos conectarmos com nós mesmos e com aquilo que estamos fazendo.

Uma analogia que gosto de usar são as grandes orquestras. Sou fã de música clássica e, sempre que vou a um concerto, percebo como os músicos, antes de começarem a tocar, sincronizam seus instrumentos e se conectam uns aos outros. Quando medito de manhã bem cedo, estou afinando meu instrumento (minha mente), entrando em conexão comigo mesmo, com meu corpo, sensações e sentimentos. Quanto estou atento à minha respiração, exercito o poder da vontade e da atenção e quando, finalmente, inicio meu dia de trabalho, faço isso com a mente em estado de calma e concentração.

Bom, neste momento deve estar bem claro que considero a meditação uma ferramenta indispensável ao líder do século XXI por todos os motivos que já elenquei. O que não disse, ainda, é que o estado de mindfulness (estar no aqui e agora em estado de atenção) e a meditação, como ferramenta útil a nos auxiliar a entrar nesse estado, são essenciais para aqueles que buscam alto desempenho, na medida em que os auxiliam a entrar na zona de produtividade extraordinária, em estado de flow.

Uma pausa para falar de felicidade e Flow

Aqui, temos um conceito muito interessante. Ele foi cunhado por Mihaly Csikszentmihalyi, professor da Universidade de Claremont e ex-chefe do

departamento de Psicologia da Universidade de Chicago.

O conceito de Flow surgiu a partir de suas pesquisas acerca da felicidade.

Afinal, o que faz uma pessoa feliz? O que lhe traz um senso de realização e o sentimento de que a vida vale a pena?

É comum ouvirmos as pessoas condicionarem sua felicidade à ocorrência de algum evento, ou a possuírem algum bem, ou mesmo aos dígitos de sua conta corrente. Em um de meus treinamentos, tenho a oportunidade de discutir o tema e sempre pergunto aos participantes o

que seria necessário acontecer em suas vidas para que se sentissem plenamente felizes. Peço para que deem asas à sua imaginação e normalmente recebo respostas como estas:

  • Se fosse aprovado no concurso público que desejo, então seria feliz.
  • Se tivesse a mulher ou homem de meus sonhos, então seria feliz.
  • Se tivesse o emprego que desejo, então seria feliz.
  • Se meus pais estivessem vivos, então seria feliz.

Perceba que, em todas as respostas apresentadas, surge um padrão comum: o padrão “se… então”. A ideia é a de que, SE tivessem ou experimentassem algo em suas vidas, ENTÃO seriam felizes. Condicionam sua felicidade a ter, fazer ou experimentar alguma coisa. Vejamos, por exemplo, o padrão que condiciona a felicidade a ter alguma coisa: uma casa, carro, avião etc.

As pesquisas mais recentes no campo da Psicologia Positiva, especialmente, conduzidas por Dan Gilbert e Ed Diener, demonstram a fragilidade da ideia de que a felicidade decorre de circunstâncias externas à pessoa. Isso se dá porque nós, seres humanos, habituamo-nos, muito rapidamente, a uma nova experiência e logo desejamos algo mais.

Desde pequenos, imaginamos que se tivéssemos um determinado brinquedo então seríamos felizes. Passado o entusiasmo inicial da novidade, voltamos ao tédio anterior. Então, elegemos um novo objeto de desejo que, desta vez, trará a promessa da tão sonhada felicidade. No meu caso, foi uma bicicleta. Acalentei ganhá-la por anos e quando, finalmente, meus pais satisfizeram meu desejo, o excitamento era tamanho que, nas primeiras noites, dormi abraçado com a “magrela”. Após algumas semanas, bem, vocês podem imaginar o que aconteceu, ela já estava encostada com os demais brinquedos antigos e meu desejo e expectativa de felicidade eterna já repousava sobre o último autorama.

Quando crescemos, os brinquedos desejados mudam. O que era uma boneca ou uma bola transformou-se em um celular, casa, carros e outros “brinquedos”.

Parece-me que nossa aptidão e potencial em experimentar a felicidade é, amplamente, dependente de nosso estado mental e não de nosso status ou conta corrente. Neste momento, você pode estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com liderança, foco, desempenho ou mesmo com flow. Tudo! Eu diria! Pesquisando sobre felicidade, Mihaly Csikszentmihalyi chegou à conclusão de que as pessoas são mais felizes e atingem resultados excepcionais quando estão em estado de flow, que nada mais é do que um estado de concentração e completa absorção pela atividade realizada.

Quando em flow, as pessoas estão tão envolvidas naquilo que fazem que nada mais parece importar. É um estado de alto envolvimento e desempenho, cuja motivação é intrínseca, proporcionando engajamento e preenchimento. É um período durante o qual a percepção de tempo, fome e preocupação consigo mesmo, em regra, desaparece.

Eu imagino que você, leitor, já experimentou esta sensação: a de estar tão plenamente envolvido e engajado com uma atividade que o tempo, literalmente, voou. E também aposto que ainda recorda a sensação de satisfação que essas atividades geraram. Csikszentmihalyi afirma que uma excelente maneira de aprimorar suas habilidades e experimentar o estado de flow, com mais frequência, é prestar maior atenção ao que acontece ao seu redor, prestar atenção às coisas.

Também sugere que estejamos dispostos a investir nossa atenção às coisas por si mesmas, sem esperar algo em retorno. Vale dizer: desenvolva o hábito de fazer o que quer que esteja fazendo com concentração, com um senso de habilidade e não de mera inércia. “Até as tarefas mais rotineiras, como lavar os pratos, vestir-se ou cortar a grama, tornam-se mais recompensadoras se nos dispomos a fazê-las com o cuidado e atenção requeridos para produzir uma obra de arte.”

Ou como diria o budista:

“aja como se o futuro do universo

dependesse do que está fazendo,

enquanto ri de si mesmo por

pensar que qualquer coisa que

faça tem alguma importância.”

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