SOBRE A DIMENSÃO MENTAL E A LIDERANÇA

Dando continuidade aos aspectos a serem desenvolvidos pelo líder, em segundo lugar, vamos falar sobre a mente

Produtividade elevada, pensamento estratégico, análise acurada, todos esses atributos demandam uma mente treinada, clara e bem desenvolvida. O problema é que neste século XXI, nossa atenção está sob permanente ataque. São incontáveis as demandas que nos chegam todos os dias: telefonemas, mensagens de texto, e-mails, pedidos de reunião, compromissos sociais. Distrações de todos os tipos, vindas do mundo real e virtual, somadas a um excesso de informação que acabam por sobrecarregar nosso cérebro. Mais que isso, o excesso de informação que hoje temos disponível por meio de revistas, jornais, tevê e, principalmente, da internet, é bastante lesiva à nossa atenção e capacidade de foco.

Herbert Simon, um dos mais festejados cientistas políticos do século XX e ganhador do PrêmioNobel de Economia, afirmou que “o que a informação consome é bastante óbvio: ela consome a atenção de seus destinatários. Daí que riqueza de informação cria uma pobreza de atenção e, com isso, a necessidade de alocar corretamente sua atenção entre a superabundância de informação disponibilizada”. Se juntarmos a tudo isso o estresse da vida moderna, principalmente nas grandes capitais, temos um cenário cada vez mais comum: executivos esgotados, irritadiços e mentalmente sem energia a ponto de, como líderes, não conseguirem gerar o impacto que gostariam. Profissionais que estão em um estado permanente de mera reatividade aos eventos que chegam, sem tempo nem força para agirem de fato em relação a eles.

Outro fenômeno interessante é que nossa sociedade fez com que surgisse uma geração de profissionais multitarefas, que se orgulham de conseguir fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Minha avó diria que assoviam e chupam cana ao mesmo tempo, ou pelo menos tentam fazer isso!

No afã de concretizar tudo ao mesmo tempo, acabam fazendo-o superficialmente, perdendo a sua habilidade de pensar de modo mais profundo e de fazer análises críticas, devido à dificuldade de foco e raciocínio em suas tarefas. Os estudos mais recentes da neurociência atestam que, embora seja possível fazer muitas coisas ao mesmo tempo, não é possível fazê-las com qualidade. Pesquisas demonstram que, se você fala ao telefone enquanto dirige, há um risco quatro vezes maior de acidente (o mesmo de estar alcoolizado). Se você, por outro lado, redige uma mensagem no celular enquanto dirige, a chance de acidente é vinte e três vezes maior. E você acha que ser multifuncional não gera impacto em seu desempenho?

Tenho para mim que são três, portanto, os desafios de todo o líder quando se pensa na mente. O primeiro é o desafio de conseguir manter-se focado e atento naquilo que está fazendo de modo a gerar o somatório ideal de alta produtividade e qualidade naquilo que faz. O segundo é o de renovar sua energia mental, em face da enxurrada de demandas que lhe chega todos os dias e, por fim, o desafio de acalmar sua mente, apaziguando os milhares de pensamentos que a invadem diariamente e, desta forma, além de produtividade e qualidade no trabalho, encontrar espaço para a manifestação de sua criatividade, clareza mental e tranquilidade interna. Meu objetivo é trazer elementos para que você, leitor (a), alcance o que chamo de Estado C do cérebro: calmo, cuidadoso, concentrado, curioso e cortês.

A era digital e os riscos que lhe são inerentes Em 23 de abril de 2005, Jawed Karim subiu o primeiro vídeo do Youtube. Em março de 2006, Jack Dorsey enviou o primeiro tweet e, em setembro do mesmo ano, o Facebook, uma rede que estava sendo utilizada somente por estudantes americanos, passou a ter acesso livre. Dessa forma, em 2015, toda essa atividade vertiginosa e inédita dos internautas completou dez anos.

Essa eclosão de conectividade, verdadeira revolução na maneira de relacionar-se e de receber informações, fez com que alguns pensadores, como Román Cendoya, identificassem uma nova espécie de homem:

O HOMEM DIGITAL.

Uma primeira característica desse homem digital é viver sempre ao lado de seus gadgets (smartphones, tablets e notebooks). Tudo está ao alcance de um “click”. Obtém-se a resposta a qualquer pergunta, instantaneamente, por meio de buscadores como Google e de plataformas como a Wikipédia. Este suposto homem digital amplia sua identidade, saindo da vida familiar e dos amigos para o espaço virtual ilimitado, onde se pode até mesmo obter seus quinze minutos de glória. Sua participação nas redes sociais, foros e blogs permite-lhe e construir o seu EU, dotando-o de novas facetas, reais ou inventadas.

Não obstante o dilúvio de informações e o imediatismo com que são conseguidas, esta nova era transformou o homem digital em um ser enfermo. As mensagens eletrônicas contínuas, os tweets, notificações de e-mail e Facebook fizeram com que esse novo homem veja-se obrigado a permanecer em alerta permanente, em um estado de excitação, culminando até mesmo em transtornos de comportamento (na Coreia e em outros países asiáticos o vício decorrente de vídeo games e internet já é considerado epidêmico).

Ora, basta olharmos para o lado e veremos pessoas que não conseguem resistir a uma sessão de cinema, uma peça de teatro, um concerto, ou mesmo uma sessão religiosa sem consultar seu celular. Este homem digital renuncia sua intimidade ao compartilhar suas fotos com milhares de “amigos” na busca de aprovação. Permanece exposto, maquiando suas experiências, idealizando suas viagens, exibindo seus pequenos triunfos e encobrindo seus fracassos.

E, por incrível que pareça, ainda que a tecnologia facilite as conexões, não raro encontramos casais absortos em seus celulares durante um jantar “romântico”. A mim, parece que encontraremos o equilíbrio na utilização da tecnologia em um futuro próximo. Quando percebermos que, não obstante as inúmeras vantagens que a tecnologia oferece, nada substitui o trato pessoal, o uso da palavra, o olhar, os gestos e a calidez dos beijos e dos abraços.

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